crânios empilhados em Phnom Penh, Camboja, resultante do Khmer Rouge
Camboja

A Trágica História do Camboja do Século XX

Nem sempre as coisas foram más para o Camboja. Houve um período, que se iniciou no século XII, em que o orgulho nacional era enaltecido, enquanto a construção de Angkor se fazia. Durante quatro séculos, o império khmer era incomparável na região. No entanto, Angkor foi invadida e saqueada várias vezes não só pelos Chams (grupo étnico do Sudeste Asiático) como pelos vizinhos tailandeses. Só ninguém pensou que as maiores atrocidades estariam para vir séculos depois.

Em 1863 os franceses entraram no Camboja e intimidaram o rei Norodom I (1860-1904), ficando o país sob o controlo francês. No início, ter os franceses presentes foi vantajoso uma vez que mantiveram Norodom no trono e em 1907 pressionaram a Tailândia a devolver territórios do Norte, como por exemplo Siem Reap (onde se situava Angkor), que pertenciam ao Camboja mas que tinham sido conquistados pelos tailandeses.

O país esteve no domínio dos franceses durante várias décadas até que após a Segunda Guerra Mundial, o Camboja conseguiu a sua independência. Os anos que se seguiram marcaram um período de paz e prosperidade no país. No entanto, a guerra do Vietnam avizinhava-se e os países vizinhos não conseguiram escapar imunes de repercussões, do qual Camboja não foi exceção. Fruto da guerra do país vizinho, muitas tropas do Vietnam do Norte abrigavam-se dentro do Camboja. Isto levou a que o país fosse bombardeado e invadido pela América e pelo Vietnam do Sul, levando o Camboja à miséria com milhares a perder a vida em bombardeamentos de uma guerra que não era sua. A revolta instalou-se. A política do Camboja começou a sucumbir, períodos de rebelião surgiram e nasceu uma grande guerra civil que durou vários anos e que culminou com o governo de Lon Nol a ser expulso e o Khmer Rouge a subir ao poder.

O Khmer Rouge foi assim o partido comunista que esteve no poder entre 1975 e 1979, liderado por Pol Pot que determinou que o Camboja devia ser um país autossuficiente. Como tal, instituiu uma reforma agrária que obrigou a que a população total de Phnom Penh e cidades da província, incluindo doentes e idosos, fosse forçada a mover-se para o lado rural e a trabalhar como escravos 12 a 15 horas por dia. As refeições consistiam em pouco mais que arroz duas vezes ao dia mas que tinham como objetivo sustentar homens, mulheres e crianças durante um dia inteiro de trabalho nos campos. Havia fome em todo o lado.

O dinheiro foi abolido, o budismo proibido e tudo passou a ser propriedade do estado. Além disso cortaram serviços médicos pelo que quem não morria da fome morria da doença, com a malária e a disenteria a fazer vítimas de forma imparável. Para muitos a morte tornou-se um alívio.

Qualquer desobediência levava a uma morte imediata. Suspeitas de conspiração ou de ter alguma relação com o regime anterior era visto como traição e levava também à execução em praça pública de forma a servir como exemplo para os demais. Todos passaram a ser prisioneiros, quer no campo, quer nas próprias prisões. Como se isto não bastasse, torturavam e executavam pessoas de forma completamente arbitrária. Muitos eram torturados até que assinassem declarações falsas em que confessavam espionagem, conspiração ou participação na CIA. Assim que o faziam eram executados.

Centenas de milhares de pessoas foram executadas pelo Khmer Rouge enquanto outras centenas de milhares morreram pela fome ou pela doença. O Khmer Rouge tirou ao povo Cambojano tudo aquilo que lhes era querido: as suas famílias, a sua comida, os seus campos e a sua fé.

A 25 de Dezembro de 1978 os vietnamitas, sabendo o que se passava no Camboja, invadiram o país em grande escala, levando o governo de Pol Pot a cair semanas depois. Pol Pot e os outros líderes do Khmer Rouge fugiram, refugiando-se na selva, perto da fronteira com a Tailândia.

Pol Pot morreu em 1998, nunca tendo sido julgado pelos crimes que cometeu.

Reparem que estamos a falar de uma atrocidade que aconteceu há pouco mais de 40 anos. As pessoas assassinadas eram os pais, avós, irmãos ou filhos dos Cambojanos que se vêm ainda hoje a circular pelas ruas. É um povo que está ainda a recuperar de uma ferida extensa e profunda. Mas que se aos poucos se está a reerguer e a fazer uma nova história.

 

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crânios empilhados em Phnom Penh, Camboja, resultante do Khmer Rouge
Crânios no Memorial Stupa nos Killings Fields de Phnom Penh

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