Corredor de Hospital em tempos de Covid
Daily Doctor

Covid-19: os médicos e enfermeiros que viraram astronautas

Diz-se que a pandemia que anda na boca do mundo talvez venha a ser o maior desafio por que todas as gerações vivas (de velhos e novos) venham a passar. Mas como é que é lidar com a covid-19?

Comecei a trabalhar em Janeiro deste ano (2020) e sou aquilo a que no percurso médico se chama “Interna de Formação Geral” (antigamente designado de Internos de Ano Comum – carinhosamente intitulados de IACs). Ser interno de formação geral é o passo seguinte após a conclusão do curso de Medicina. O objetivo desta fase da formação é o ganho de autonomia enquanto passamos por várias áreas médicas e cirúrgicas durante 12 meses, e preparando-nos assim, para no fim desses 12 meses ingressarmos na área de formação especializada (por outras palavras, especialidade) que escolhemos seguir.

Digo várias vezes que foi preciso azar para que ao fim de três meses de internato geral tenha levado com uma pandemia, impacto esse do qual ainda me estou a recompor. Sejamos sinceros: eu não sou heroína nenhuma por estas bandas. Verdade seja dita quando vos confesso que nem com o programa informático do hospital sei trabalhar a 50%. Mas não faz mal, porque com uma pandemia à porta, todos os profissionais de saúde, independentemente do seu grau de formação (da fralda ao cabelo branco) se tornam carne para canhão.

Vi a ser levada para longe a ideia de que este seria um “ano calmo”. Quando dei por mim estava a ser recrutada para “covidários” ou instruída a enfiar zaragatoas narizes acima. A parte positiva de tudo isto é que vi a ser realizado o meu sonho de infância: o de ser astronauta. Obrigada covid, pela improvável oportunidade. É certo, não fui à lua, mas os fatos que usamos diariamente favorecem a personagem. Olhamos à volta e todos estamos iguais. Não fosse a gravidade e sentia que a nossa nave ia em direção a Marte. Mas se no início de Março me sentia a caminhar em direção a Marte, no final do mês já me sentia a ir em direção ao Sol, não fosse o calor que se aguentava por debaixo daqueles fatos. A sede, a fome, mas essencialmente a sede. Sabia que quando escolhi ser médica, teria à minha frente muitos sacrifícios, mas não pensei que aguentar as necessidades mais básicas como sede, fome, ou a vontade apertadinha de ir à casa de banho, fossem alguns deles.

Houve tempos em que achei que seria só mais uma gripe. Tão ingénua que eu era.

Ser interna significa que sou tutorada. Tenho alguém mais velho cuja função é orientar-me no que for possível e ajudar-me no que for capaz. Quando a Covid surgiu em Portugal, a minha tutora disse-me “acho que pela primeira vez na vida percebo o que os nossos avós e bisavós sentiam quando eram chamados para a guerra”. Antecipei-me e perguntei-lhe “medo?”. Ao que ela me respondeu “não, o dever pela pátria”.

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