Cadeiras e Sombreiro numa Praia
Cuba

Cuba: de Paraíso a Pesadelo

Gostava que esta fosse uma publicação a transbordar dicas e conselhos para conhecerem Cuba, as suas estonteantes praias e uma Havana vibrante. Gostava de vos dizer que tinha passado dias de “papo para o ar” a beber água de coco, e noites a dançar música cubana enquanto aproveitava o calor tropical, próprio das Caraíbas, mesmo depois do sol se pôr.

No entanto, não é nada disto que vos trago.

Fui a Cuba em Setembro de 2017. E podia ter sido uma paragem de uma semana no paraíso, mas não foi. “E não foi porquê?”, perguntam vocês. A razão chama-se “Irma”. Irma é o nome do furacão que atingiu o golfo do México, Caraíbas e EUA em Setembro de 2017. E não se deixem enganar, não foram apenas uns dias ventosos. O furacão Irma foi um furacão de classe 5 (grau máximo da escala) que deixou um rasto de devastação por onde passou.

Mas começando pelo início…

Quarta-feira

Tinha na altura 23 anos. Aterrei em Cuba com os meus pais e a minha irmã, no dia 6 de Setembro, uma quarta-feira à noite. Era uma viagem familiar. Daquelas que por vezes deixam de lado a componente mais aventureira e primam pelo conforto e pelo tempo de qualidade passado juntos. Praticamente nunca tínhamos viajado e era um sonho do meu pai visitar Cuba. A altura proporcionou-se e lá fomos.

Quinta-feira

Acordámos com o Sol a bater na janela. Abrimos as cortinas. O azul do mar cortava a respiração e a água confundia-se com o céu. Se havia paraíso na terra, ele situava-se ali mesmo. O nosso hotel ficava em Varadero, um dos melhores locais de Cuba para se fazer praia. Lembro-me que aquela quinta-feira foi inesquecível. Sabem o que é molharem os pés na água do mar e ela estar tão quente como a do vosso duche? E não, não estou a exagerar. Arriscava-me a dizer até que já tomei banho com água menos quente do que a que dava à costa naquela praia. E sim, neste dia houve água de coco, e músicas cubanas durante todo o tempo. Mas foi só neste dia.

Havia por todo o lado notícias que anunciavam a chegada do furacão.

Cadeiras e Sombreiro numa Praia

Sexta-feira

Quando acordámos, o Sol já não era o mesmo do dia anterior. Era um Sol mais tímido, mas o calor era o mesmo. A água do mar já não formava aquela baía que eu tinha visto um dia atrás. Era agora um mar agitado que não permitia a nossa entrada.

Preparava-se a chegada do furacão. As espreguiçadeiras eram todas atiradas para dentro da piscina. Os sombreiros no areal eram todos desmontados. As folhas das palmeiras eram cortadas e os vidros eram todos marcados com uma grande cruz de fita adesiva vermelha. Havia vento. Quanto mais o dia avançava, mais vento se fazia sentir.

Tentámos contactar o staff do Hotel sobre o que se iria passar, mas eles pouco nos sabiam dizer. No entanto, havia uma informação que era clara: no dia seguinte, tínhamos impreterivelmente de ficar no nosso quarto, acontecesse o que acontecesse.

O sol já se tinha posto quando começaram a chegar autocarros para levar incontáveis turistas que ali estavam hospedados para o aeroporto local. Iam abandonar Cuba horas antes do pior estar para vir. Se até aquela altura tínhamos desvalorizado a situação, foi ali que começou a nascer algum receio em nós. Começámos a ter a sensação que quase todos estavam a fugir. E nós não tínhamos como nem para onde ir.

Sábado

Era dia 9 de Setembro. Sabíamos as indicações: não sair do quarto acontecesse o que acontecesse. O vento na rua fazia-se ouvir dentro daquelas quatro paredes.

Eram 8h da manhã quando nos bateram à porta pela primeira vez. Era o staff. Trazia para cada um de nós aquilo a que nós gostávamos de chamar “ração de combate”. Cada pessoa tinha direito a um iogurte, uma sandes com pasta de atum, uma garrafa de água, uma carambola (uma fruta em forma de estrela, razão pela qual é chamada de “Starfruit” em inglês) e duas goiabas. Às 10h da manhã o abastecimento repetiu-se, exatamente com a mesma comida que anteriormente, agora intitulada de “almoço”, e às 12h foi-nos trazida mais uma dose, exatamente igual às duas anteriores, mas que desta vez serviria para jantar. Percebíamos o porquê de nos estarem a dar o jantar ao meio dia. Seria perigoso também para o staff sair dos seus quartos depois disso. Estava prevista a chegada do furacão a Cuba por volta das 15h.

A manhã passou-se com tranquilidade. Pusemos a conversa em dia, jogámos cartas, como qualquer bom tuga sabe fazer em tempos de tédio, e lemos durante um bom bocado. De vez em quando espreitávamos à janela para vermos a força do que se passava lá fora. Sentia que se pusesse os pés na varanda seria levada com o vento. O mar não era mais aquela baía azul que se via ao longe, e as palmeiras já tinham perdido grande parte do seu conteúdo. Mas sabíamos que por volta das 15h o furacão começaria a subir na sua rota, em direção aos EUA e as coisas acabariam por abrandar por ali. Ou pelo menos era o que pensávamos.

No período da tarde já ninguém suportava o cheiro das goiabas que nos tinham deixado. Cada um de nós tinha recebido seis goiabas (duas em cada “ração de combate”), o que no total contabilizava uma modesta quantia de 24 peças de fruta. O que mais levo na memória deste dia fatídico, foi sem dúvida o cheiro das goiabas que me impregnavam as narinas. Tentei muito adaptar-me a elas, não só ao cheiro como ao sabor, mas acabei por desejar com afinco apenas uma maçã.

Saco de goiabas

Deviam ser umas 16h quando ficámos sem televisão, e passado pouco tempo ficámos sem água na casa de banho. Mas não fazia mal porque já tínhamos atingido o pico, e a partir dali o vento começaria a abrandar. Mas não abrandou.

Durante toda a tarde a intensidade do vento tornou-se assustadora. Pela janela, víamos palmeiras a serem arrancadas com a força das rajadas e a serem atiradas contra varandas. “Espero que estejam vazios” era o meu pensamento assim que via cada uma daquelas árvores partirem vidros e entrarem dentro de quartos. E se o nosso fosse a seguir? Para onde fugiríamos? Se saíssemos do quarto entraríamos num corredor ligado à rua (característica arquitetónica muito típica de países tropicais), pelo que essa também não seria uma opção. Não teríamos nunca para onde ir em segurança.

Não percebíamos o que se passava. A intensidade da tempestade devia há muito ter abrandado, mas em vez disso cada vez se tornava maior. Não tínhamos televisão para poder ver notícias, bem como qualquer rede de internet ou acesso a informação do exterior. Tentámos ligar para a receção. O telefone também não funcionava. Rondava as 20h quando o nosso medo era maior do que aquilo que se passava na rua.

Uma das imagens mais perturbadoras que tenho é a da minha mãe a abrir o armário da roupa e a tirar tudo o que lá dentro se encontrava. Percebi que estava a tirar medidas. Perguntei-lhe o porquê. Ela respondeu-me “quero saber se cabemos aqui os quatro”.

Domingo

Quando acordámos a tempestade tinha acabado. Espreitámos à janela. Turistas curiosos passeavam de um lado para o outro, entre o rasto de destruição que tinha sido deixado: árvores, vidros partidos, materiais que nem sabíamos de onde tinham vindo. O calor no entanto, continuava o mesmo. Bastava fechar os olhos e parecia que tínhamos voltado à quinta-feira que nos encheu as medidas.

Abrimos a porta do nosso quarto em direção ao corredor. Lembram-se de vos ter dito que era ligado à rua? Pois bem, por lá também se via água e vidros no chão, e o teto parecia ter sido levado com o vento. E este era um cenário que se multiplicava por todos os sítios onde passávamos.

Neste dia a comida voltou a resumir-se a goiabas e iogurtes. Nada no hotel estava em funcionamento e provavelmente, tão depressa, nada iria ficar. Mas todos nós estávamos bem e na verdade, depois do susto do dia anterior, era apenas isso que importava.

O mar tinha agora semelhanças com o mar da Nazaré num dia mau. Não podíamos nem chegar perto. Por volta das 18h30m anoitecia, e com a falta de eletricidade, era a essa hora que todos também ficávamos às escuras. Todas as vezes que queríamos usar a casa de banho, descíamos até à piscina (que por esta altura nada mais era do que um afogar de vidros partidos), enchíamos um balde e assim remediávamos a ausência de autoclismo. As coisas mudaram muito em tão poucos dias.

Carro Típico de Cuba
Carro típico de Cuba

Segunda-feira

As melhorias começaram a surgir. Voltámos a ter comida além de goiabas, e o mar permitia agora uns passeios pouco aventureiros à beira mar. Sentíamos a água nos pés de vez em quando e ela continuava tão quente como no primeiro dia.

Terça-feira

Chegámos assim ao nosso último dia por Cuba. Para a despedida, o mar voltou a permitir a nossa entrada. Estava muito diferente daquele mar visto no primeiro dia, mas ainda assim, o calor da água fazia-nos ter a certeza que continuávamos no mesmo sítio. Não era ideal, mas servia para a despedida.

Neste dia à noite, voltámos a dançar música cubana. Quase parecia que nada se tinha passado. Mas passou…

Pôr do Sol em Cuba

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