Livro Para Onde vão os Guarda-Chuvas
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Livro “Para Onde Vão os Guarda-Chuvas”

Esta foi a minha estreia com Afonso Cruz. E que estreia! Estou completamente assoberbada com este livro e nunca palavras nenhumas lhe farão jus. Este livro não é para ser conhecido por sinopses. É para ser lido, vivido, sonhado, sentido e refletido. Só assim se tirará todo o valor que este livro tem.

Posso começar por dizer que não percebi os primeiros 20% do livro. E não percebi no sentido em que me foram apresentadas uma quantidade ainda considerável de personagens, cada uma com traços muito peculiares e cada uma com a sua história. Mas quando conhecem cada personagem como se fosse vossa conhecida, e todas as histórias se interligam e passam a ser uma só, torna-se impossível largar o livro.

Para Onde Vão os Guarda-Chuvas?” passa-se no Médio Oriente, num país efabulado. Aqui conhecemos Fazal Elahi, um homem que queria ser invisível e passar despercebido tanto quanto possível e que por isso passava a vida a olhar para o chão, o que curiosamente lhe proporcionava a sabedoria imensa que tinha sobre as tramas dos seus tapetes; Bibi, mulher de Fazal Elahi e que ao contrário deste, e para mal dos seus pecados, gostava de dar nas vistas e de chamar a atenção, com as suas jeans tão pouco orientais e com os seus longos cabelos longe de qualquer burca; Babini, o primo mudo que era um poeta com as mãos; Aminah, que sonhava em casar mas que tinha um problema nos dentes; Mudaliar, um indiano que por amor se converteu ao islão; Salim, que queria ser um avião; Isa que sabia de cor todas as capitais de todos os países e que quando tinha medo repetia baixinho “escarlatina, escarlatina, escarlatina”. E tantas outras que temos a honra de, ao longo do livro, tão bem conhecer.

Mas mais do que uma data de personagens com características peculiares, esta é uma história sobre a perda. Porque tal como não se sabe para onde vão os guarda-chuvas perdidos ou as meias que desaparecem na lavagem, também ninguém sabe para onde vamos depois de morrer. E mais do que ser um livro sobre a perda, é um livro sobre a busca de consolo depois dessa perda. Mas é também um livro sobre a religião e por vezes sobre a falta dela. É um livro sobre tolerância e também sobre amor. É um livro sobre o equilíbrio absurdamente/moralmente/esteticamente desequilibrado do mundo, que nem na altura da morte se equilibra. É um livro sobre uma vida finita e uma morte infinita. É a necessidade de ser amado, mesmo que para isso se tenha de morrer.

Mas não se deixem enganar. Porque se durante quase 600 páginas este livro vos dá asas para sonhar e vos envolve em frases bonitas, também vos dá um soco no estômago com o final do qual ainda vão demorar a se recompor, com o coração partido, esmagado e amarrotado.

Se há algo que é crucial reter no final deste livro é que a vida não é para ser vivida com “se’s”, com incertezas, com medo de agir. Não é para reprimir ações nem palavras. Nem é para viver de olhos postos no chão. Acho que esta se torna a maior e mais cruel lição deste livro.

 

E para um livro para o qual não há palavras, deixo-vos com a minha citação preferida deste livro:

“Os nossos corpos têm veias para fora deles. Escuta, amado discípulo, essas veias ligam-se a lugares especiais, a pessoas de que gostamos. Um aparelho circulatório que não é ensinado nas aulas de anatomia, que não se aprende nas madrasas nem nas universidades. O nosso coração não bate cá dentro, bate na terra de que gostamos, ó discípulo, nos objetos que nos são especiais, nos peitos dos nossos familiares, em músicas que nos fazem chorar. Nunca ninguém nos ensinou onde estava realmente o coração, aquilo que ouvimos bater no peito é apenas um reflexo de todos os nossos corações, que batem em tantos lugares diferentes. As nossas noções de anatomia, amado Gardezi, estão todas erradas.”

 

É uma leitura que devia ser obrigatória! Comprem o vosso e deixem-se envolver. Fico à espera de saber se gostaram tanto dele como eu!

Livro Para Onde vão os Guarda-Chuvas

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