Ser Cuidador: livro "A Elizabeth desapareceu"
Daily Doctor

Ser Cuidador de um Velhinho Demente

Hoje trago-vos um desabafo. Desabafo esse que tem origem no livro que terminei ontem: “A Elizabeth Desapareceu”.

Em traços gerais, este livro é narrado por uma senhora com Alzheimer que de minuto a minuto se esquece do que lhe foi dito, de onde está, quem está à sua volta. Dói estar dentro da cabeça dela. Vamos percebendo a deterioração cognitiva que vai sofrendo ao longo do tempo, até ao culminar de não reconhecer a sua filha. Podem ler a review do livro aqui.

Ao longo dos meus seis anos de curso, e também de alguns meses de trabalho, cruzei-me inúmeras vezes com velhinhos dementes. Doía-me o coração por cada um deles. Não considero um final de vida digno, nem pouco mais ou menos. Perguntava-lhes várias vezes “Sabe que edifício é este onde estamos?”, ou “Sabe quantos anos tem?”, e no final, no registo diário, muitas das vezes acabava por escrever “Desorientado/a no tempo, espaço e pessoa”.

Mas há uma coisa que muitas vezes desprezamos e que tem particular relevância neste livro: os cuidadores.

Lembro-me em particular de uma velhinha muito querida, que achava ter 20 anos e ainda viver com os pais, e que estava internada há cerca de duas semanas por uma pneumonia. Naquele dia, as análises estavam bem, estava estável sem oxigénio, a auscultação estava, como nós gostamos de dizer, limpinha, e como tal, estava pronta para ir para casa. Comecei a preparar a alta e por volta do meio dia (hora das visitas), cruzei-me com a filha dela no corredor. Aproveitei para lhe dar a notícia que a sua mãe estava muito melhor e como tal, ia ter alta naquele dia. Ao contrário do que eu esperava, a filha desfez-se num mar de lágrimas. Senti-lhe, acima de tudo, a vergonha pela sua própria reação. Ela dizia-me várias vezes “não me interprete mal, o que eu mais quero é que a minha mãe esteja bem e saudável”, mas também percebi o porquê do desespero. Aquelas duas semanas em que a mãe esteve internada, foram, no espaço de cinco anos, a primeira vez que ela dormiu noites completas. Ela era sua cuidadora a tempo inteiro, tendo-a trazido para sua casa, onde vivia desde então. Mas há cinco anos que aquela senhora não tinha um “dia de folga”. Há cinco anos que não saía de casa, que não ia jantar fora, que não ia à praia. Não é fácil ser cuidador. E acho que aquela senhora, tal como tantas outras pessoas, só o conseguia ser pelo extremo amor que sentia pela mãe. E no meio das lágrimas, no meio do cansaço, da exaustão e da vergonha, eu sentia-lhe o amor. Limpou a cara, agradeceu-me e foi dar um beijinho à mãe, ajudando-a a vestir-se e a prepará-la para a levar para casa. Durante todo aquele tempo, a sua mãe chamou-a de enfermeira. Ela não a reconhecia. E mais uma vez, vi uma lágrima cair no rosto daquela mulher.

Ser Cuidador: livro "A Elizabeth desapareceu"

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